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Adolescentes usam redes sociais para fazer diagnóstico de saúde mental

Bárbara Nicolly, de 17 anos, foi diagnosticada em 2020 com ansiedade após uma crise de estresse que provocou dores nas costas. O sintoma persistente chamou a atenção da mãe, a professora Luciana Andrade, que foi orientada por uma amiga a levar a filha ao psicólogo para análise do quadro. Mesmo com acompanhamento profissional desde então, a estudante não deixa de lado uma prática cada vez mais comum entre adolescentes, quando o assunto é a saúde mental: o autodiagnóstico a partir de conteúdos de redes sociais. “Já cheguei à conclusão de que tenho depressão, bipolaridade, borderline e TDAH”, comenta Bárbara. O psicólogo Lucas Soares, no entanto, alerta: somente um especialista pode fazer o diagnóstico. 

Ele reconhece que, a exemplo do que tem acontecido no mundo inteiro, a prática cresceu no Rio Grande do Norte com a chegada da pandemia de covid-19. Soares, que estuda a psicologia do luto e do trauma, afirma que a crise sanitária, onde os impactos por causa de perdas familiares cresceram, aliada ao fácil consumo de conteúdo sobre saúde mental nas redes, contribui para o aumento do autodiagnóstico entre os adolescentes. A dificuldade de acesso a profissionais da área também estimula a busca por informações na internet.

Segundo Lucas Soares, o autodiagnóstico mais frequente feito pelos adolescentes no Estado está relacionado ao mundo escolar e transtornos de humor. “A partir disso, os diagnósticos mais comuns de serem buscados na internet por essa faixa etária, são depressão, ansiedade, bipolaridade e borderline, quando se fala em transtornos de humor. Em relação à escola, parte do problema tem a ver com a má-formação de professores”, aponta.

Para Soares, “muitos psicopedagogos, sempre que veem alguma questão relacionada à atenção, ao ‘mau comportamento’ ou à dificuldade de aprendizado dos alunos, associam TDAH [Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade], TOD [Transtorno Opositor Desafiador] ou até mesmo o autismo, como opções diagnósticas”. Já para Ronald França, conselheiro de orientação e fiscalização do Conselho Regional de Psicologia do RN (CRP-RN), a prática costuma aumentar entre adolescentes que estão finalizando o ensino básico. 

 “É muito comum para aqueles que estão perto de fazer Enem ou vestibular. Isso ocorre porque eles estão vivenciando um evento finalista, de deixar a escola, com uma carga que, muitas vezes, envolve também aula em cursinho”, analisa. Para a estudante Bárbara Nicolly, a rotina puxada na escola contribui para o surgimento de alguns sinais que fazem com que ela busque as redes sociais para qualificar os sintomas. 

 “Tem os estudos, minhas tarefas na residência escolar e a distância da família, que provocam muita ansiedade”, conta a adolescente, que é natural de Lagoa de Pedras, no Agreste potiguar, mas passa a semana na Escola Agrícola de Jundiaí, em Macaíba, onde estuda. Bárbara confessa que, depois de um tempo, alguns diagnósticos deixaram de fazer sentido, mas admite que a facilidade de acesso e as dúvidas em relação aos sintomas, motivam a busca por temas ligados à saúde mental na internet. “Descartei, com um tempo, a possibilidade borderline e bipolaridade, mas continuo pesquisando na internet. No Tik Tok, por exemplo, aparecem vários conteúdos sobre isso, então, é fácil acompanhar”, conta. 

 Difícil acesso a profissionais facilita prática

O psicólogo Lucas Soares chama a atenção para a questão socioeconômica, que dificulta o acesso a profissionais qualificados para o diagnóstico no Estado. Em contrapartida, o uso das redes sociais está sempre ao alcance da maioria dos adolescentes, o que facilita o aumento das buscas sobre o tema e, consequentemente, uma conclusão sobre o próprio quadro de saúde mental.

“O traço socioeconômico é um contributo muito forte para que o autodiagnóstico aconteça”, pontua Lucas Soares. “Essa busca na internet não será algo que a gente vá conseguir desestimular e, acho que nem deveria, porque, talvez seja a primeira vez que o indivíduo consiga admitir que está com algum problema. Por mais que haja críticas, esse pode ser um primeiro passo para a mudança. Mas a orientação, óbvio, é que o adolescente nunca deixe de fazer o diagnóstico junto a um especialista”, acrescenta o psicólogo.

A exemplo de qualquer outra situação que diz respeito à identificação de doenças, o autodiagnóstico de transtornos ligados à saúde mental pode provocar sérios riscos ao paciente, segundo os especialistas. “O primeiro deles é que, muitas vezes, o sujeito parte para um diagnóstico patológico, ou seja, ele se vê como um indivíduo doente. Mas nem sempre é assim. Outro ponto é que, na adolescência, existe uma identificação com particularidades que são conhecidas (músicas e gostos parecidos, por exemplo) e isso inclui tendências psicológicas. Então, o adolescente começa a usar esses diagnósticos como meio de identificação”, explica Ronald França, do CRP. 

“Sem falar que o autodiagnóstico é muito complicado para qualquer idade, porque as pessoas não estão preparadas para fazê-lo e acabam por banalizar a situação de quem tem alguma questão relacionada, de fato, ao sofrimento psíquico”, complementa França. Ele aponta por que, no RN, os autodiagnósticos mais comuns entre adolescentes são os de ansiedade e depressão. “De modo geral, existe muita confusão em relação à ansiedade, comum de a gente sentir no dia a dia, mas frequentemente vista como algo patológico e, por isso, percebida como ansiedade generalizada”, detalha.

O psicólogo Lucas Soares explica que os transtornos de humor – especialmente, ansiedade e depressão –  mais comuns do ponto de vista do autodiagnóstico feito por adolescentes no RN têm a ver com as chamadas emoções-base. “Isso acontece porque esses transtornos estão ligados a sentimentos que já nascem com o indivíduo. A tristeza é a emoção-base da depressão e o medo é a emoção-base do transtorno de ansiedade generalizada”, conta. De acordo com ele, não dá para responsabilizar os adolescentes pelo autodiagnóstico feito a partir das redes sociais.

“Eu avalio que o processo de formação profissional e órgãos devem ser responsabilizados antes de o adolescente ser demonizado”, pontua. A formação deveria contemplar a produção de conteúdos traduzidos na internet, mas as faculdades de Psicologia e Medicina não tratam disso. Depois, acredito que devem ser responsabilizados os conselhos de classe, os quais deveriam fazer um monitoramento maior das redes, para que informações pouco fidedignas não cheguem aos adolescentes. Precisa haver uma regulamentação daquilo que pode ser posto na internet, porque os riscos são muito grandes, como a automedicação, inclusive”, avalia Soares.

Segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, o melhor caminho para mitigar os efeitos do autodiagnóstico a partir de conteúdos na internet é o diálogo, uma vez que não é possível proibir o uso das redes ou até mesmo reduzir o período que os adolescentes passam diante das telas. Além disso, ambos reforçam: procurar um profissional para um diagnóstico preciso é imprescindível. 

“É necessário criar um espaço de diálogo para conversar sobre saúde mental em casa e dizer que aquilo que o adolescente está sentindo pode não ser, necessariamente, um transtorno, mas um sintoma”, orienta Lucas Soares. É o que a professora Luciana Andrade tem buscado fazer junto à filha, a estudante Bárbara Nicolly.

 “Eu vejo que é impossível impedir o uso das redes sociais, então, converso com ela para indicar que, dentro do pouco conhecimento que eu tenho sobre o assunto, os sintomas não significam que ela possui algum transtorno”, comenta Luciana. Além de psicopedagoga, a professora está no terceiro período do curso de Psicologia, o que auxilia a entender melhor com a situação.

Para Ronald França, o diálogo entre pais e filhos deve ser prioridade nesses casos, embora, na avaliação dele, esta é uma questão que enfrenta um desafio específico. “Muitas vezes os adolescentes têm esses exemplos de diagnóstico dentro de casa, por parte dos pais. A internet é um catalisador, mas não é um ambiente que gera esse autodiagnóstico por si só, porque ele já existe na sociedade”, afirma. França chama atenção para a complexidade de se fazer qualquer diagnóstico, o que requer o conhecimento de diversos fatores em torno do indivíduo.

“Geralmente, o adolescente faz uma espécie de check-list dos sintomas, mas um diagnóstico, de fato, não tem nada a ver com isso. Está relacionado, na verdade, ao contexto de vida, a comportamentos e situações que o sujeito vivenciou”, ensina. “Por isso, os pais precisam ter muito diálogo com os filhos para entender o que eles estão sentindo. Se a situação se reverbera em outros espaços e o adolescente continua a se identificar com os sintomas, é importante buscar orientação com um profissional para tratamento, se for o caso”, acrescenta.

Tribuna do Norte

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